
Se você não der o dízimo, você está roubando a Deus e o devorador vai acabar com as suas finanças. Será? Onde está escrito isso na Bíblia? Qual versículo no Novo Testamento diz que o dízimo é obrigatório?
Esse é um assunto que dá pano pra manga e não é pra menos. Pois é isso que tem sido ensinado em muitas ”igreja” ou ”denominações”. E um dos textos mais usados da Bíblia para falar sobre o dízimo é Malaquias 3:10, onde infelizmente, muitos dos pastores e líderes não sabem ao certo interpretar, e acabam pregando coisas que não condizem com os tempos atuais.
E neste estudo bíblico, nós vamos estudar juntos a respeito do dízimo a luz da palavra, analisando o contexto do Antigo e Novo Testamento. Você vai saber se de fato é obrigatório dar o dízimo e onde está escrito sobre o dízimo no Novo Testamento.
E para compreender o que a Bíblia fala sobre o dízimo, é importante entender sobre Antiga Aliança e Nova Aliança.
Dízimo na Antiga Aliança e Nova Aliança
Na Antiga Aliança, o dízimo foi dado como lei a Israel por meio de Moisés. Mas é importante observar que o dízimo já existia antes mesmo de se tornar lei.
Na Bíblia, o dízimo é mencionado pela primeira vez com Abraão, muito antes da Lei de Moisés, quando ele deu o dízimo de tudo ao sacerdote Melquisedeque (Gênesis 14:19:20). Mais pra frente, em Gênesis 28:20-22, você vai ver que Jacó prometeu dar o dízimo de tudo que Deus lhe concedesse, reconhecendo a soberania de Deus sobre seus bens.
No Antigo Testamento, o dízimo passou a ser Lei e um ato obrigatório essencial para o funcionamento do sistema religioso e social de Israel naquela época. Esta afirmação está baseada em Levítico 27:30.
Na Antiga Aliança, existia um sistema de sarcedócio levítico, o templo era usado como o centro do culto e sacrifícios repetidos.
Já na Nova Aliança, nós temos Cristo como o mediador. Ou seja, não existe mais o sistema sacerdotal, pois Jesus é o sumo sacerdote. Também não existe mais sacrifícios, pois Jesus foi o cordeiro oferecido como sacrifício único e definitivo. Portanto, não precisamos mais fazer nenhum tipo de sacrifício pois ele já nos redimiu de todo o pecado.
Com isso, temos o perdão pleno do nossos pecados e a lei passa a ser escrita no nosso coração. Diferente dos Dez Mandamentos em pedras, a Nova Aliança promete gravar a lei internamente, tornando a obediência e generosidade um fruto do amor e da transformação interior, não por obrigação ou ordenança (Jeremias 31:33-34 e Romanos 2:15).
Além disso, A Nova Aliança inaugura um relacionamento baseado na Graça. Ou seja, através do favor imerecido de Deus, nenhum ato religioso ou obras podem pagar o que Deus fez por nós, nem mesmo nos redimir dos pecados. Ele nos amou primeiro, Ele quem nos resgatou e nos redimiu de todo pecado. Não existe nada que podemos fazer para pagar ou retribuir a Deus.
Logo, fazer sacrifícios e devolver o dízimo como obrigação, lei ou com medo do devorador consumir suas finanças, não cabe no contexto descrito no Novo Testamento.
Onde o dízimo se encaixa? O dízimo é obrigatório? É lei?
Dentro da Velha Aliança existiam basicamente 3 tipos de leis:
- Leis civis: são encontradas principalmente em Êxodo, Levítico e Deuteronômio, que regulavam a vida diária, a justiça social e a estrutura governamental da nação de Israel. Elas abrangiam propriedade, contratos, direito familiar, penalidades criminais e relações com estrangeiros, visando a ordem teocrática.
- Leis cerimoniais: eram diretrizes rituais e cultuais específicas dadas à nação de Israel, focadas no sistema de sacrifícios, pureza ritual e adoração no Tabernáculo/Templo. Elas apontavam para a vinda de Jesus Cristo e foram cumpridas com Sua morte e ressurreição, não sendo, portanto, obrigatórias para os cristãos hoje.
- Leis morais: tem como o pilar principal os 10 Mandamentos, que representam princípios éticos eternos e imutáveis que definem a vontade de Deus para o comportamento humano. Diferentes das leis cerimoniais (rituais de sacrifício) e civis (leis judiciais de Israel), as leis morais focam no amor a Deus e ao próximo, permanecendo válidas como base para a conduta cristã.
O dízimo se encaixava nas leis cerimoniais, que são descritas no Antigo Testamento. Hoje, nós seguimos somente as leis morais, o que torna o dízimo no Novo Testamento um ato de gratidão e amor, não de obrigação. Portanto, ele deixa de ser lei e passa a ser um princípio.
Quando Salomão diz em Provérbios 3:9 ”Honra ao Senhor com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda”, ele está traduzindo o dízimo como um princípio bíblico de fidelidade, sugerindo colocar Deus em primeiro lugar com o melhor dos ganhos, mostrando que você reconhece e tem o SENHOR como sua provisão e que tudo vem dEle.
Para quem era entregue o dízimo?
O dízimo foi designado por Deus para sustento dos Levitas. Por quê? Porque os Levitas não receberam herança de terras em Israel. A tribo de Levi foi separada para serviços de culto e também viviam do que o povo trazia ao templo.
Além disso, o dízimo também foi designado lei para suprir as necessidades dos orfãos, víuvas e estrageiros. Fica aqui as referências (Deuteronômio 12:12, Deuteronômio 14:27-29 e Números 18:21-24).
O devorador destruirá as finanças de quem não der o dízimo?
Um dos textos mais citados nas igreja para falar de dízimo é o de Malaquias 3:10-11 que, na maioria das vezes, é utilizado para impor medo, pressão e julgo no povo de Deus, dizendo que se você não der o dízimo, o devorador vai cosumir suas finanças e você não vai prosperar.
Mas o contexto de Malaquias aqui está falando diretamento com Israel, dentro da Velha Aliança. E o elemento aqui não é dinheiro, e sim agrícola e pactual.
- Agrícola (Produtos da Terra): O dízimo original (mosaico) consistia na décima parte dos produtos agrícolas e dos animais (Levítico 27:30, 32). Não se tratava de dinheiro, mas da colheita (cereais, frutas) e do rebanho, refletindo uma economia agropastoril.
- Pactual (Aliança): O dízimo era uma obrigação legal e aliancista entre Deus e o povo de Israel, parte da Lei dada por Moisés. Era um “acordo” de fidelidade no qual o povo reconhecia que a terra e seus frutos pertenciam a Deus.
E o devorador citado no texto, se refere a pragas que destruíam a colheita. Muitas vezes os gafanhotos vinham e destruiam toda a plantação e colheita que haviam sido cultivados.
Quando transformamos o ”devorador” em um demônio ou uma sentença que Deus usa para nos punir, surge-se um grande problema. Imagina Deus ter que te enviar um demônio toda vez que você não dá o dízimo. Teologicamente isso causa um problema sérios como:
- Troca a motivação do coração: aquilo que era para ser entregue por amor e alegria, passa a ser entregue por medo e obrigação.
- Distorce o caráter de Deus: nós começamos a enxergar Ele como coletor punitivo e não como um Pai Gracioso e Amável.
- Confunde a fonte dos ataques espirituais: a Bíblia nunca ensina que Deus envia demônios pra quem não está entregando o dízimo.
Atribuir toda a perda financeira e material ao demônio (ou devorador), é apenas uma superstição religiosa e não um ensino bíblico.
Como funciona o dízimo no Novo Testamento (ou Nova Aliança)?
Na Nova Aliança, a Bíblia não estabelece o dízimo como mandamento. Ela estabelece o dízimo como princípio de contribuição.
Esses príncípios são encontrados em 2 Coríntios 9:6-7, onde Paulo ensina a contribuir conforme você decidiu no coração. Não por obrigação, nem por constrangimento, mas com alegria. Em 1 Coríntios 16:1-2, onde a contribuição deve ser organizada, proporcional e consciênte. E em Atos 2:44-45, nós aprendemos que a lógica da igreja primitiva era que a generozidade era extremamente importante e cuidar dos necessitados também. Além disso, a partilha era voluntária.
Na Nova Aliança, o dízimo não é imposto por lei. A contribuição aqui é uma resposta à Graça. Quando você é alcançado pelo Evangelho de Cristo e é transformado por ele, o seu coração se torna generoso.
Estamos roubando a Deus se não dermos o dízimo?
O texto que cita o ”roubar a Deus” está em Malaquias 3:8, e ele está dirigido a Israel, dentro da Velha Aliança. O contexto está se referindo ao sustento do templo e dos Levitas, não a igreja da Nova Aliança. O que quer dizer que o dízimo no Novo Testamento não se refere a nós nos tempos atuais, nem mesmo afirma que estamos roubando a Deus.
Como já vimos, o dízimo na Nova Aliança é uma contribuição voluntária, o que quer dizer que não é imposto por lei.
Mas aqui que está o detalhe: Quem é transformado por Cristo é generoso.
Onde fala na Bíblia sobre o dízimo no Novo Testamento?
O dízimo no Novo Testamento é mencionado principalmente por Jesus ao corrigir a hipocrisia dos farizeus e na carta ao Hebreus ao explicar o sacerdócio, mantendo o princípio de generosidade.
Em Mateus 23:23 e Lucas 11:42, Jesus repreende os farizeus por darem o dízimo das ervas, mas negligenciaram a justiça, a misericórdia e a fé. Jesus está validando o dízimo como uma prática legítima. Eles deveriam praticar a justiça e misericórdia, sem ser omisso na entrega do dízimo.
Em Hebreus 7:1-10, Abraão é citado dando o dízimo a Melquisedeque, mencionando que o dízimo é uma prática que antecede à lei mosaisa e, portanto, segue sendo relevante para os dias atuais. Aqui a passagem bíblica se refere a supremacia de Cristo.
Outras referência sobre o dízimo no Novo Testamento
- No livro de Lucas 18:12, Jesus menciona um fariseu que dizia: “jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”. Porém, o foco aqui é a justiça própria, não a condenação do dízimo em si.
- Em 2 Coríntios 9:7, embora o foco mude do dízimo obrigatório de 10% para contribuição generosa, Paulo enfatiza que cada um deve contribuir ”segundo propôs no seu coração”, com alegria, e não com tristeza ou necessidade.
Resumindo, o dízimo no Novo Testamento é frequentemente entendido como uma expressão de adoração, gratidão, generosidade e suporte ao ministério. O foco na Nova Aliança é dar o dízimo com amor e não como uma obrigação imposta por lei.
Observação Importante
Muitos vão discordar e dizer que sim, nós temos que dar o dízimo e ponto final. Mas a questão aqui é: biblicamente falando, o dízimo não entra como brigação. Logo, somos contra a imposição e a manipulação que gera medo e obriga as pessoas a dar o dízimo. Isso é anti-bíblico.
Agora, você quer seguir as lei cerimoniais? Então você tem que seguir por completo. Não pode ser só aquilo que te convém. Você vai ter que começar a sacrificar animais por perdão de pecados, pois isso faz parte da lei.
Nós não podemos seguir só aquilo que nos convém.
Para encerrar o estudo bíblico
Dízimo pertence à Velha Aliança, o ”devorador” não é demônio e não vai consumir suas finanças. Na Nova Aliança não roubamos a Deus e a entrega passa a ser por generosidade, gratidão e amor, sendo um princípio estabelecido por Cristo que continua até os dias de hoje.
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